"Fi-lo porque qui-lo"
Num dia desses fiz uma excursão antropológica pelo centro da cidade pra comprar bugigangas paraguaias nas galerias da Rua da Praia. Como estava na hora do almoço e o leão na minha barriga já começava a dar sinais de vida, tomei a decisão de me aventurar por um território desconhecido e amedrontador: os restaurantes a quilo do centro de Porto Alegre. Nosssa!!! Vi um grande ali, respirei fundo e entrei.
Já no início a muvuca é um prato repleto pra espantar qualquer um que tenha um certo discernimento psiquiátrico. A hostess nada receptiva com cara de mal humorada ajuda a apimentar a entrada. De cara me entregou um papel com um número 254. Naquele ambiente acachapante, humildemente perguntei quanto tempo demoraria pra chegar a minha vez. "Cinco minutos" latiu o misto de cão e mulher com cabelos platinados de raiz preta. Me encolhi num canto com olhos atentos esperando o tempo passar.
Fiquei olhando pensativo durante alguns minutos a chuva que molhava o capô dos carros estacionados na rua. Trovão: 254 e quase se vai meu tímpano do ouvido esquerdo que já não é tão bom assim por causa do meu passado musical.
Me apresentei e fui apontado pra sentar em uma mesa com quatro lugares vagos. Refazendo do enorme susto sentei e esperei o garçom pra pedir um refri, afinal era uma quarta-feira e o trago só rola no final de semana. Pelo menos estou tentando segurar essa idéia e dar um tempo pro figueredo nas últimas semanas. Ta difícil, mas ta indo.
Um homem vestido de preto com uma cara enfezada parou do meu lado, tomei um susto com a bufada da venta brazina que aquele touro Miúra deu na minha orelha. Prontamente pedi um "guaran...", o homem cortou minha fala como adaga afiada, dizendo que aquela mesa estava reservada e se eu não me importava de sentar em uma de dois lugares logo ali. Cara, na boa, fiquei puto da cara e resolvi incorporar o espírito d'El Cordobes, quase puxando a toalha laranja Fanta pra torear aquele animal enfurecido. Já de saída disse que me importava sim, inclusive achava que aquela mesa tinha sido reservada pra mim mesmo, ou tu achas que eu estava ali pra brincar de dança das cadeiras. Convenhamos. Na verdade a mesa era uma merda, ficava num cantinho quase atrás de um pilar, mas pra mim era ótimo estar na Sibéria, não queria que ninguém me visse naquele estupor. Ele sentiu que eu não estava pra muitos amigos, deu uma rabanada e saiu voando com as guampas baixas.
Segundos depois aparece um homem sorridente e calado, com uma bandeja com alguns copos preenchidos com líquidos das mais variadas cores, alguns com mini guarda-sóis, outros com rodelas de laranja na borda, olhei meio torto e vi uma taça de espumante. Me surpreendi como Porto Alegre tinha evoluído em termos de atendimento e como eles se importavam com os clientes. Os caras fazem uma cagada e vem se redimir oferecendo um champanhe, bacana. Apesar de não estar bebendo durante a semana, achei que ia ficar chato não aceitar o regalo. Sorri e peguei o copo.
Quando estava acabando o primeiro gole vi que o homem puxou o papel na minha frente e escreveu com uma caneta bic "1 champanhe". Como assim? Questionei o garçom. O cara me explicou que aquilo era cobrado a parte e que não estava incluído no rodízio. No mesmo segundo minha raiva tomou proporções estratosféricas. Como é que te servem um lance e não avisam que aquilo é purfa. Ora bolas, eu estou num restaurante self-service. Sem comentários.
1,2,3,4... Contei até dez, me refiz e comecei a observar o entorno pra tentar me acalmar. Passo um baixinho com cara de malandro segurando numa mão um prato de massa com molho branco, batatas fritas, um pedaço de manga e dois sushis. Tudo disposto de uma maneira pollockiana. Não decifrava onde começava um e terminava o outro. A comida servida nos restaurantes self-service é quase confessional. Inventar é livre. Um terreno de experimentação e criatividade individual talvez maior do que os restaurantes de culinária ultramoderna conseguem propor. Mas a desconstrução e a reconstrução são regras da gastronomia da hora e, de repente, se está diante de uma atualidade inesperada. Simplesmente é um arranjo inimaginável dentro dos cânones gastronômicos, brotando um Ducasse dentro de cada um.
Junto com meu guaraná diet chegou um cesto com pãezinhos dentro. Pela dureza do croissant imaginei que talvez aquele cestinho servisse pra um tipo de site seeing de panificadora, e daqueles que dura o dia todo. Pelo visto, já tinha bailado todo o salão e agora caía no meu colo como um tijolo com argamassa. Como a fome estava grande, resolvi encarar um pão-de-queijo. Panificado fiquei eu com a textura borrachenta que aquele negócio tinha.
Tentando me desvencilhar do Ploc sabor queijo rançoso, vejo ao meu lado um cara, que pela criatividade gastronômica, deveria ser o novo Ferrán Adriá dos pampas. A fusion cuisine do malaco era incrível. Num só prato tinha feijão, batatas, melancia, ovo, bacon e uma indecifrável grama verde. No mesmo instante olhei pro papel na minha frente escrito 254 e o refluxo estomacal bateu no gogó. Imaginei a salada remexida e temperada com perdigotos durante algumas horas por mais de trezentas pessoas. Não desejo nem pro meu pior inimigo.
O ambiente é turbulento com algumas tias bregas soltando risadas estridentes, típicos gerentes wannabes falando alto enquanto cavocam everests de arroz, feijão, bifes e berinjelas. O cheiro de fritura misturado com peixe do mercado público fica impregnado na roupa pra relembrar no jantar o que se comeu no almoço. A arquitetura nada minimalista e o corre-corre estonteante dos garçons ajudaram a me deixar mais mareado ainda.
Já que eu estava no inferno, resolvi apertar a mão do Diabo, afinal eu estava ali pra comer ou pra conversar? No meio do enorme salão pessimamente decorado com quadros de conchas marinhas, igualzinho aos que vi nos camelôs de Torres, postava-se uma enorme gôndola de mármore marrom com espelhos e luzes fluorescentes sob a bancada. Só faltava um globo giratório e um queijinho com go-go girls. Fiquei estupefato, não com quem projetou tamanha monstruosidade, mas sim com a criatura que teve a coragem de gastar dinheiro naquela aberração. Juro que nunca vi tanto mau gosto em uma só tralha.
Na frente daquele Titanic infernal as pessoas se acotovelavam numa fila onde a distância máxima entre as coxas era dois milímetros. Não sei como as pessoas conseguem se desesperar tanto na hora de servir um simples prato de comida. Não dá nem tempo de pensar o que vai colocar, se tu para pra dar uma olhada no que a casa oferece, é encarado por olhares ferinos. Voltar pra pegar aquele tomate esquecido, nem pensar. Temperar a salada... Ahahahaha!!!
Os braços mais pareciam escavadeiras abrindo fendas em cumes de montanhas coloridas que nasciam no Duralex amarelado. O vai e vem das mãos Caterpillar montando fabulações gastronômicas, num frenesi psicótico me deixou em transe. Quando saí daquele estado hipnótico, vi que tinha corrido toda a extensão do monumento ao kitsch e não tinha colocado uma folha de alface sequer em meu prato. Olhei pra trás meio desanimado em ter que encarar de novo aquele despautério. Na ponta do balcão, um tristonho pirex de sagu piscou pra mim, fiquei com pena e coloquei na minha bandeja. 550!!! O atendente na balança escreve em um papel entregando pruma gordinha com cara de secretária que estava na minha frente. Ela sai sorridente.
O menino com cara de bom moço olhou pra minha bandeja com a expressão de quem não estava entendendo nada. O que aquele mané estava fazendo ali com um mísero sagu nas mãos e um prato vazio? "Tô sem fome" falei. Ele pegou um papel e rabiscou um S nele. Agradeci e fui pra minha mesa siberiana curioso pra saber o que me esperava naquele mar de bolinhas roxas. Pasmem, estava bem bom.
Abraçado ao meu sagu, fiquei meditando sobre qual seria o impacto de longo prazo dessa nova instituição alimentar no gosto médio da população brasileira. O certo é que o tradicional ala minuta caducou e ficou para trás. Hoje o cardápio do crioulo doido supre vontades muito mais individualistas, como o mundo em que vivemos. Não há como negar: o buffet é o fim, ou um novo começo.
Mas sempre há uma luz no fim do túnel. O buffet de almoço do Charlie Pizza em Porto Alegre pilotado pela cozinheira Tita Macedo é um bastião na culinária executiva da cidade. No balcão a gente vê saladas ótimas e variadas, super bem elaboradas, carnes naquele ponto certo, torteloni fininhos e delicados com recheios saborosíssimos. O must fica pro almoço de domingo, sempre com um prato exótico especial como bobó de camarão, vatapá, polenta mole... Esqueçam os outros, aqui é o ouro.
Charlie Pizza







Adorei seu momento "disputa-do-bife"... Cá pra nós, eu como estudante já passei por poucas e boas aqui em Santa Maria também. Deixo meu abraço solidário e depois de muitas gargalhadas de doer a barriga, voltarei para meu estágio, que no momento está tranqüilinho. Até a próxima!
Cris Fabian (não verificado(a)) em 11/26/2007
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